quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Integração sul-americana do trabalho e ensino na qualificação profissional



O artigo a seguir foi publicado no ano de 2005 no Caderno de Viagem & Aventura do jornal O Estado de S. Paulo.

Mesmo sendo publicado à 05 anos atrás, o assunto reflete para um cotidiano ainda não alcançado e que se faz necessário tornar-se realidade, ao meu ver. Acompanhe.

De Dorival Pinotti – Consultor e diretor de admissões das escolas Les Roches e Glion – Suíça.

A integração do continente passa pela hospitalidade

A despeito da multiplicação desenfreada de escolas de nível técnico e superior com currículos e qualidade discutíveis, tanto de turismo como de hotelaria e gastronomia, há que se mencionar e louvar muitos cursos extremamente competentes que já perceberam a importância de estar lado a lado com o mercado e, claro, ter o aluno como foco principal. Em toda a América do Sul há diversas escolas com esse potencial.

Entretanto, face a nossa situação econômico-social (países da América do Sul) e de diferentes impedimentos e, principalmente por ostentarmos passaportes nossos e não europeus, jovens estudantes e recém saídos dessas escolas têm sua experiência profissional limitada a seu próprio país e mercado. Qual atitude a tomar, já que fazemos parte de uma indústria internacional?

Creio que aqui poder-se-ia iniciar a tão falada, badalada, sofrida, angustiada e desesperada integração sul-americana.

Sempre são apresentadas propostas para setores como indústria e agricultura (áreas que cada vez empregam menos porque estão cada vez mais automatizadas), ficando esquecida a indústria da hospitalidade (turismo, hotelaria, gastronomia, parques, etc.), atualmente a maior empregadora mundial de mão-de-obra individual e o setor que mais cresce em todo o mundo.

Não quero entrar em detalhes sobre priorizar o turismo. Já falamos inúmeras outras vezes em sua importância e necessidades. Hoje, nosso objetivo é o de abrir portas para que, com a integração dos jovens em nosso continente, possamos dar início ao processo de integração política, econômica e social de que tanto precisamos.

Há que se criar oportunidades de estágio e treinamentos para nossos jovens (sul-americanos) em todos os países da região. Há que se permitir que estudantes de hotelaria (ou recém-formados) façam seus estágios em países vizinhos.

Procurar conhecer novas realidades e obter novas experiências só enriquece a bagagem profissional desses jovens alunos e isso pode ser possível com, pelo menos, estágios de até 6 meses em outros países. Essa possibilidade deverá dar uma nova abrangência na carreira do jovem, além de estabelecer uma significativa integração da área da hospitalidade entre os alunos sul-americanos.

Sei que já existem muitas ofertas de estágios em países como o Chile (para a temporada de inverno), mas tudo é ainda muito limitado, e figura mais como aproveitamento de mão-de-obra barata. Se não existir um hotel no destino e uma empresa ou escola no Brasil para organizar os detalhes, não é viável. E a duração é sempre de, no máximo, 1 à 3 meses (quando tanto), dentro do permitido pelo visto de turista.

O que estou falando é de se permitir esse intercâmbio de estagiários de uma maneira oficial, por período de até 6 meses, sem a necessidade das formalidades de visto especial. Assim, esses jovens poderiam – por meio de agências de intercâmbio especializadas ou simplesmente enviando seu currículo a um hotel – fazer um estágio internacional.

Seria um ganho enorme para esses talentosos jovens que, por terem nascido no mais belo dos continentes, às vezes são alijados de oportunidades para desenvolverem todo seu potencial profissional. Com isso, todos nós ganharíamos: os jovens, pela oportunidade de uma experiência cultural e profissional internacional; as escolas, por um maior intercâmbio entre seus alunos; a indústria (hoteleira), por ter mais futuros profissionais com experiência internacional; e nossos países, por iniciarem uma integração com o futuro do continente: os jovens e a indústria da hospitalidade.

Seria pedir muito?

(Caderno Viagem & Aventura, O Estado de S. Paulo, São Paulo, 31 mai. 2005, p. 2.)