sexta-feira, 17 de julho de 2009

Estudo sobre lazer

Lazer

O lazer - "problema" de sociedades em que a boa renda da maioria das pessoas associou-se à diminuição (provocada pela tecnologia) das horas semanais de trabalho - poderia ser definido como o tempo que essas pessoas podem despender livremente em atividades gratificantes. O termo "lazer", hoje mais utilizado do que "recreação", resulta provavelmente da predominância de textos em língua inglesa, sobretudo dos Estados Unidos, onde vários autores descreveram uma classe considerada "ociosa" (leisure class), revelando um fato que chegou a constituir um problema nacional.

Existe forte relação entre trabalho e lazer, relação que alguns autores situam como m
era oposição. A sociedade industrial e o surgimento de economias de mercado confirmaram o aspecto penoso e alienante do trabalho, valorizando, em consequência, o tempo do não-trabalho, o tempo livre ou de lazer, conceituado então como escape e repouso. Tal conceito, porém, é limitado, pois o trabalho não será sempre, necessariamente, penoso e alienante. Segundo o canadense Marshall McLuhan, "enquanto na idade mecânica da fragmentação o lazer era a ausência do trabalho, ou o puro ócio, é inversa a situação na idade da automação. A idade da informação exige o uso simultâneo de todas as nossas faculdades. Assim, descobriremos que estamos no maior lazer quando estivermos mais intensamente envolvidos: um pouco como artistas, em todas essas idades". Também Karl Marx mostrou-se preocupado com o assunto, ao escrever que "o trabalho é a essência do homem, mas o lazer é o território do desenvolvimento humano".

Criatividade e tempo livre


O objetivo do lazer seria a recuperação física e intrapsíquica do homem, bitolado pelas regras do jogo da produção e suportando mal aquelas tensões que são prejudiciais na vida urbana, despertando, por outro lado, sua criatividade. Segundo Joffre Dumazedier, o lazer "é um conjunto de atividades em que o indivíduo, além de repousar e divertir-se, pode, sobretudo, desenvolver sua informação e formação desinteressada, sua participação social voluntária, liberar sua capacidade criadora, desvinculado de suas obrigações profissionais, familiares e sociais". Trata-se portanto de ato gratuito (livre) em sua adesão, destituído de fins deliberadamente lucrativos e desligado das relações de produção. Quando no período de lazer algo é produzido (um quadro por pintor domingueiro, por exemplo, ou um artefato de madeira executado por passatempo), esse evento é casual: o objetivo do lazer está na atividades e não no resultado, por mais que este de prazer ao autor.

Uma função urbana

Aproximando a recreação do lazer, o arquiteto Le Corbusier definiu-a como uma "re-criação" de energias, potencialidades e capacidades criadoras do homem. Essa re-criação seria, segundo a Carta de Atenas (1939), uma das quatro funções de vida urbana (as outras seriam: trabalhar, habitar, circular) e um meio para refazer energias despendidas nas tarefas produtivas, contrabalançando o esgotamento que o homem sofre, especialmente em sua vida urbana: desgaste físico e psicológico causado por tensões, pressão da concorrência, acirramento de invejas, frustrações constantes, compulsão para o consumo, voracidade estimulada, superficialidades dos contatos humanos, etc.

Diversos autores definirão o lazer como tempo livre, pondo ênfase no problema do tédio e preocupação pela ausência de programação para aquelas horas em que o homem não dorme e nem produz. Essas horas tendem a aumentar à medida que uma sociedade se industrializa ou chega ao estágio de pós-industrialização. É curioso notar que alguns países em que a jornada de trabalho tem sido diminuída, como por exemplo na Alemanha e na Suécia, os operários preferem, frequentemente, ocupar-se com uma segunda atividade econômica que aumente a renda familiar, revelando, talvez, ainda não terem inventado formas suficientemente satisfatórias para o exercício das funções recreativas.

Por outro lado, em países subdesenvolvidos é comum o segundo emprego, ocupando chamado "tempo livre" de um chefe de família mal remunerado. Nesses países, biscates e subempregos são necessários para a mera subsistência. Em algumas regiões, a carência de empregos, agravada pelo aumento de população e pela elevada taxa de urbanização, empresta outro sentido à expressão "tempo livre": para um desempregado, todo o tempo é "livre", sem que isso nada tenha a ver com lazer ou recreação.

No tempo e no espaço

Para que haja lazer é necessário disponibilidade de tempo, além das horas dedicadas à produção, ao sono e à alimentação. Esse tempo de lazer pode ser diário, semanal (week end) e de longa duração (férias anuais). O lazer cotidiano é representado sobretudo por leitura, televisão, bate-papo no botequim, pratica desportiva, encontro com amigos, cinema, namoro, etc.; o semanal, por pescaria e campismo ou, em países afluentes e camadas mais ricas, pela casa na praia, no campo ou na montanha, permitindo sempre uma evasão do quadro urbano em que desenrola a vida produtiva e rotineira; e o lazer de longa duração propicia principalmente viagens, inserindo-se nele o vasto capítulo do turismo, que pode ser definido como “lazer itinerante de relativa longa duração”.

Mas a forma de lazer depende, naturalmente, da forma em que se dá o desgaste físico, psicológico, e de hábitos. Para os habitantes de uma aldeia rural na África, por exemplo, o melhor lazer talvez seja o local fechado, com microclima, chamado cinema; para os habitantes de Nova York, será um gramado e o trinar de pássaros. De qualquer modo, parece que a função recuperativa do lazer é mais psicológica do que física. O repouso pode dar-se no sono e, especialmente, no sonho. A distensão psicológica pode ser obtida também através de uma atividade diferente do habitual, uma distração.Um período de mero repouso físico não chega a melhorar automaticamente o desempenho das pessoas nas atividades produtivas: as estatísticas revelam a predominância de acidentes do trabalho às segundas-feiras e logo após as férias.

Nas grandes cidades, a recuperação intrapsíquica proporcionada pelo lazer torna-se essencial para filtrar, compreender, criticar e assimilar ou recusar a enorme quantidade de estímulos sensoriais e intelectuais que o homem recebe constantemente pelos meios de comunicação. O lazer seria, assim, um instrumento para assimilar criticamente a avalancha sensorial e informativa, ajudando a enfrentar uma vida que se caracteriza pela transitoriedade dos valores e das motivações, realizando assim a recuperação, intrapisíquica necessária ao homem que enfrenta constantes mudanças.







As organizações do lazer

É preciso notar que, se por um lado o lazer se caracteriza como uma necessária função urbana, por outro lado não é verdade que toda tensão urbana seja nociva, nem que a única forma de resolver o problema daquelas tensões que são nocivas seja o lazer.

Exemplo: um estádio de futebol necessita da tensão resultante do aglomerado de pessoas; ea tensão de um mau tráfego deve ser resolvida por medidas de planejamento e mudanças na estrutura da cidade.

Em sociedades onde existem grande renda per capita, muito tempo livre e elevado padrão de vida, criarem-se verdadeiras “industrias” de lazer, definidas como “serviços de lazer”, que compreendem um leque muito diversificado de atividades econômicas: desde agencias de turismo até fabricas de raquetes; da venda de passagens a prazo à publicação de livros e revistas, da organização de espetáculos musicais ao comercio de tendas para campismo. O vulto dos interesses econômicos a ele ligados faz duvidar da liberdade que deveria ser inerente ao desempenho do lazer. A maior parte das formas de desfrutar o tempo livre é induzida, através de todos os meios de comunicação, por entidades que visam à manipulação de massas ou lucro. O turismo de massas é um bom exemplo dessa crescente indução e condução do lazer, que só não chegou a ser totalmente dirigido porque os próprios concorrentes que exploram o setor propiciam, por sua quantidade e concorrência, escolhas e opções, a partir de tendências pessoais. Assim, a liberdade do lazer, na maioria das atividades previamente programadas, resume-se a aderir ou não. Apesar de tudo, é preciso convir que sem essas organizações, públicas e privadas, o lazer não seria acessível ao crescente número de usuários.

O espaço do lazer

Boa parte das formas modernas de lazer requer um importante componente: o espaço. Para o lazer cotidiano, por exemplo, o espaço necessário vai desde as dependências domésticas em que se valoriza a privacidade (condições adequadas para leitura, para assistir televisão, etc.) até o gramado para as brincadeiras infantis após as aulas. A paisagem urbana também pode ser considerada um espaço para o lazer passivo: na locomoção diária entre local de trabalho ou estudo e o domicilio, percorrer a cidade pode ser enfadonho e desgastante ou, pelo contrário, agradável.

Ao redor das grandes cidades, o espaço para o lazer semanal é composto por corredores de acesso (rodovias, por exemplo), por sítios naturais (matas, lagos, praias, morros e outros) ou por núcleos urbanos especialmente construídos (estações de água, colônias de férias, etc.).

Para contrabalançar o consumo do espaço provocado pelo lazer-mercadoria, característico das sociedades de consumo, urbanistas consideram necessária a criação de espaços, urbanos ou não, capazes de acolher atividades lúdicas e não programadas, ricas em criatividades, servindo de palco à iniciativa e à invenção espontânea e aumentando em última análise a lucidez dos cidadãos, sua experimentação e criatividade, a gratificação de desempenho em atividades livres, espontâneas.

Na exagerada exploração do espaço para fins de lazer, insere-se parte do grave problema da poluição: a invasão turística de sítios naturais ou cidades históricas, por exemplo, frequentemente acaba destruindo os próprios recursos existentes. De acordo com Henri Lefebvre, o espaço urbano tornou-se “um lugar de consumo e um consumo de lugar”. Para evitar o caráter destrutivo do lazer, é necessário o planejamento e organização dos espaços, assim como uma conscientização dos usuários.

Enciclopédia Abril, fasciculo n.º101 - 1973.

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