quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Viagem de negócios deve elevar receita de hotéis.

Quem em 2008 experimentou um dos melhores entre os últimos anos bem poderia estar engrossando o discurso "borocoxô" em que "a crise" é sempre o sujeito da oração. Mas hotéis de negócios parecem ter deixado o choro de lado e, apesar de projetarem para 2009 crescimentos menores do que no ano anterior, prevêem um cenário positivo, que inclui até aumento de preços.
"Eu sou da opinião que, em tempos de crise, as pessoas tiram menos férias, mas trabalham e viajam mais para fechar negócios", diz Rafael Guaspari, presidente da Atlantica Hotels e do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (Fohb), que representa 27 redes de hotéis voltadas na maioria para viajantes corporativos. Guaspari acredita que será possível repassar para o valor das diárias pelo menos a inflação, estimada em 7%. Mas o nível do desemprego "parece crescente", segundo ele, e é o fator mais preocupante no ano que se inicia.

Nos primeiros dez meses de 2008, as redes conseguiram avanços acima de dois dígitos (ver quadro). Dados do Fohb mostram que a receita por apartamento (revpar, no jargão do setor) avançou 12% na média das capitais São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Curitiba, Porto Alegre e Brasília, entre janeiro e outubro. O crescimento foi composto pelo aumento de 6% na diária e de 4% na ocupação. Praças como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre apresentaram alguns dos maiores avanços.
Será difícil que esses resultados se repitam neste ano. Um relatório da Jones Lang LaSalle Hotels estima que em 2009 "o crescimento da performance dos hotéis do país será moderado, em comparação ao forte crescimento dos dois últimos anos". Contudo, de acordo com a análise, a desvalorização do real "deverá ter um impacto positivo para os hotéis de luxo urbanos e para os resorts".
Para o sócio da consultoria HVS, Diogo Canteras, não há motivo para desânimo. O crescimento do PIB neste ano pode não ser tão vigoroso quanto o de 2008, mas ainda assim a economia vai crescer. "Não é nenhuma tragédia crescer 2,5% em vez de 6%. A demanda por hotelaria vai subir", afirma.
As previsões das redes para 2009 são mais modestas do que os resultados de 2008, mas ainda apontam crescimento. A rede InterCity, com 13 hotéis, prevê crescer 5%, depois de ter elevado a receita do ano passado em 15%, para R$ 54 milhões. O forte aumento do faturamento em 2008 fez o resultado operacional crescer 25%, segundo Sérgio Bueno, diretor de novos negócios da empresa.
A Accor acredita que o movimento em seus hotéis já existentes devem crescer de 3% a 4% em 2009, menos do que os 10% planejados antes do estouro da crise em setembro. Em 2008, a rede alcançou receita de R$ 958 milhões na América Latina, com crescimento de 20% sobre 2007. O Brasil representa mais de 80% da oferta da companhia na região.
Ronaldo Albertino, diretor geral da Hotelaria Brasil, afirma que 2008 foi o melhor ano da rede de 11 hotéis criada em 2003. Na receita por apartamento houve avanço de 30%, parte gerado pelo crescimento de 7% na ocupação e parte pelo aumento de 13% nas diárias. O resultado líquido foi positivo pela primeira vez e somou R$ 650 mil. Para 2009, o executivo crê que será possível repassar aumentos nas tarifas, apesar de projetar uma redução da ocupação, ainda que "não profunda". A meta é elevar a receita em 5%, por meio do aumento das diárias, e manter o resultado final.
Para Canteras, mais importante ainda do que a demanda em 2009 é que haverá aumento controlado da oferta. A Accor e a Atlantica, que são as duas maiores do país - a primeira tem 145 hotéis e a segunda, cerca de 60 - devem ser umas das poucas a inaugurar novos empreendimentos: 15, no caso da primeira, e 9, no caso da segunda.
No passado, a grande vilã do setor foi a explosão da construção de novos hotéis em pouco tempo. Em São Paulo, por exemplo, o aumento da oferta entre 1998 e 2004 foi tão maior do que a evolução da demanda que os empreendimentos derrubaram suas diárias na disputa por hóspedes. O resultado foi uma queda de nada menos do que 70% na receita por apartamento e um enorme mal-estar entre as redes hoteleiras e os investidores - muitos dos quais pessoas físicas que foram atraídas pela promessa de rentabilidade feita pelas próprias redes e incorporadoras.
Agora, além de moderaram a abertura de novas unidades, as redes hoteleiras parecem ter entrado num consenso para segurar os preços. "As empresas aprenderam que baixar a diária para roubar cliente do outro não funciona: o número de hóspedes não aumenta e os investidores dos hotéis ficam muito frustrados", diz Roland de Bonadona, diretor geral da Accor para América Latina. Segundo ele, o público corporativo viaja independentemente do preço do hotel e é pouco estimulado por diminuição de tarifas. A Accor é a maior do país com 145 hotéis.
Isso quer dizer que, mesmo que a demanda fique estável ou caia um pouco em 2009, os preços devem se manter ou até mesmo aumentar. "É muito fácil baixar preço, difícil é elevar depois", afirma Sergio Bueno, diretor da InterCity, que endossa a tentativa das redes de resistir à redução. Redes como Atlantica e IHG disseram recentemente que pretendem aumentar as diárias em 10% em 2009.
Há também apostas no crescimento do mercado de eventos. O hotel Holiday Inn que fica ao lado do centro de exposições do Anhembi, em São Paulo, pretende crescer com realização de eventos que ocorrem em paralelo às grandes feiras de negócios e que exigem um capacidade de hospedagem elevada. O hotel é o maior da América Latina, com 780 quartos. Em 2008, a ocupação média foi de 44%. A meta é aumentá-la em 2009.

Roberta Campassi, do Valor Econômico - 02/01/2009.

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