quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Gestão pública é a área de atuação do Bacharel em Turismo

A articulista do Portal H2FOZ, Silvia Thomazi, analisa a área que envolve a formação acadêmica dos profissionais do Turismo. Silvia revê a polêmica do não reconhecimento da profissão de Bacharel em Turismo, o aproveitamento desses profissionais no mercado e a saturação da profissão, além da indicação de onde os profissionais em Turismo devem realmente atuar.
Silvia Thomazi é mestre em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali-SC), e bacharel em Turismo pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Atua como docente nos cursos de graduação em Turismo na Unioeste e de pós-graduação em Turismo, Eventos, Ecoturismo e Gestão Pública.

Portal H2FOZ – Silvia Thomazi como você analisa a formação acadêmica dos profissionais de Turismo em Foz do Iguaçu?
Silvia Thomazi
– O primeiro curso de Turismo em Foz aconteceu em 1984, portanto são 23 anos de formação profissional no setor. Durante esse período a preocupação com a formação profissional melhorou muito, em observação aos docentes capacitados por disciplina específica na área de turismo, a proposta da grade curricular de formação do bacharel e contexto de revisão periódica do conteúdo programático. Houve uma melhora sensível no resultado final no ensino nos últimos anos, devido a uma pressão do mercado. Essa é uma porta que abre e fecha de uma maneira harmoniosa, de acordo com as tendências e oportunidades de atuação.
No entanto, à medida que os profissionais se formam e vão para o mercado de trabalho encontram uma primeira dificuldade, que é a falta de regulamentação da profissão. Só lembrando que o primeiro curso de turismo ocorreu em 1981 e de lá para cá a regulamentação do profissional do turismo não ocorreu. É uma discussão que vem sendo acompanhada pela ABBTur (Associação Brasileira de Bacharéis em Turismo), tem parlamentares envolvidos com isso, mas a regulamentação não ocorre.
Isso se explica, entre outros aspectos pela característica de administração que carrega uma área sem reserva de mercado, o que já não ocorre com os Guias de Turismo que ganharam essa causa há pouco mais de cinco anos. Então os ganhos efetivos da carreira profissional, hoje o mercado não pode nem perceber, efetivamente.
Um exemplo disso, são desenvolvidos projetos técnicos na área de turismo. Não existe acervo técnico dos projetos, não existe responsabilidade técnica do Bacharel em Turismo envolvido com os resultados dos projetos que são colocados em prática. Perde-se na comprovação e valorização do profissional.
Por outro lado o mercado, na medida em que não tem regulamentação, hoje tem profissionais de primeira linha trabalhando no operacional, enquanto profissionais de outras áreas estão no planejamento estratégico/gerência.

E o que o mercado ganha com qualidade desses profissionais formados?
É a melhor percepção de como o turismo pode ser planejado e desenvolvido para promover o setor econômico de um destino, região, estado e país. Neste caso, lembrando que setor econômico corresponde ao desenvolvimento sustentável. É o caso de Órgãos Oficiais de Turismo – como Secretaria de Turismo e afins que exigem no ingresso através de concurso público que o candidato tenha no mínimo a graduação em Turismo.
Todo o conhecimento que se tem de carreira faz com que o processo seja mais facilitado, que se abrevie o processo de construção e sejam promovidas as medidas necessárias com o olhar de um profissional para o “campo” de turismo, que se ocupa da gestão do setor e não das empresas (hotéis, agências, empresas de eventos, entre outras). Se tem o ganho de evolução durante todo o desenvolvimento e condução da “pasta turismo”.
O inverso é verdadeiro, enquanto não tem profissional que não conheça toda a orientação no desenvolvimento do turismo, incorre-se em uma série de erros e experiências desnecessárias – veja Foz do Iguaçu em vários momentos na “história do turismo”. Perde-se no curto, médio e longo prazos. Não há dúvidas na prática sobre o ideal na gestão de uma realidade turística, desde os mecanismos de uma política pública de turismo, processos e metodologias de planejamento não convencionais, ordenação de espaço, serviços e usos; além de benefícios à comunidade, que são as prerrogativas da profissão já enunciadas pelo Ministério da Educação e SESU. Ou seja, o setor é beneficiário direto do desenvolvimento do turismo em questão de tempo dedicado e resultados.

Qual seria o primeiro passo para regulamentar a profissão de Bacharel em Turismo?
O problema ainda está passivo criado com o projeto inicial. Para desenvolver estudos, indicadores e estatísticas, inventário de atrativos, elaborar leis de turismo, entre outros, seria fundamental a manifestação de um Bacharel em Turismo. No entanto cada uma dessas disciplinas, algumas clássicas, já tem um profissional que realizam e com reserva de mercado. Essa fronteira que ainda não foi ultrapassada – dos limites de atuação, onde cada qual, estatísticos, arquitetos, geógrafos, economistas, advogados, engenheiros e por aí vai, atuam lado-a-lado, na especificação do contexto, mas não na função.
Aqui começa e encerra todo o debate, sem evolução.
Boa parte se explica pela confusão do “conhecimento de” e do “conhecimento acerca de”. O Bacharel em Turismo está no segundo caso e sua especialidade não pode ser ignorada. Outra questão está na forma do reconhecimento que por garantias aos que estão atuando na área sem a graduação se enquadrarem, como é o caso na comprovação da carreira. Mas em todo processo se ganha e se perde. Enquanto essa visão permanecer somente se perde.
O projeto de lei distorce, confunde e deixa de prever a devida atuação do profissional em turismo. Isso porque acaba atendendo uns e outros grupos de interesse e o projeto de lei vira um “remendo”. Mas, enquanto isso o registro profissional, como no meu caso, optei pela CRA (Conselho Regional de Administração) com restrições de atuação “somente na área de turismo”, para não ficar sem categoria.
Qual atuação do Bacharel em Turismo? É, essencialmente na área pública, responsável pela gestão do turismo, de localidades, de região de destino, não importa o espaço geográfico. É a concepção do desenvolvimento do turismo a partir do poder publico, enquanto setor econômico e suas formas de manifestação em garantias à sociedade e ao meio de ocorrência. Esse é nosso campo efetivo de atuação, na defesa daquilo que se começou com a Declaração de Manilla até o atual Código de Ética Mundial, entre outros instrumentos.
Em resumo, o Bacharel não se habilita para atuar diretamente nas empresas de turismo - não é gerenciamento de agência, de hotel, casa de entretenimento (“conhecimento de”) apesar de conhecer todo o sistema em que se apóia.
Definitivamente, não é preciso cursar quatro anos para isso, são ofertados excelentes cursos técnicos e com expectativa operacional que o mercado busca. O turismo é tão abrangente no seu planejamento como os campos da saúde, educação, esporte, meio ambiente, habitação, entre outras funções sociais. Como também, se discute P&D em Turismo, as T.I, o resgate de carbono, entre outros aspectos, que são de ocupação e preocupação constantes.
As licitações públicas, como exemplo, já requerem um profissional de turismo com experiência em gestão pública – esse é um grande avanço a ser considerado, como um esclarecimento principal na formação profissional, com a responsabilidade inerente no gerenciamento do turismo, enquanto setor.
Só que esse entendimento não transparece no projeto de lei até hoje. Principalmente pela falta de atuação efetiva de Bacharel em Turismo na carreira pública e na verificação de suas modalidades ocupacionais. O que observa desde a graduação é que maioria dos casos, 90% dos profissionais que se formam vão para os operadores de mercado. Os demais vão optam pela carreira de docentes, e uma pequena parcela vai dar sua contribuição na área pública, onde encontra na maioria das vezes oportunidade e estabilidade – quando não somente pela estabilidade da área pública, atuando em funções aquém de sua formação.
Outra grande área que se abre nos últimos anos é de consultoria em turismo, com melhores oportunidades de atuação com base no conhecimento especializado.
Existe atualmente alguma mobilização para modificar o projeto no Congresso Nacional para o reconhecimento da profissão?
Eu diria uma mobilização paralela. O próprio Ministério do Turismo e Embratur vem fazendo, que é a constituição de alguns cadastros de profissionais e para projetos já vem fazendo uma reserva de mercado onde autorizações de projetos que envolvam a assinatura de um profissional de turismo como elemento principal, ou seja, há necessidade da assinatura e responsabilidade do bacharel desde o início do processo.
Como projeto político e institucional não se tem notícia de uma mobilização no sentido de regulamentar no curto prazo a profissão. Pode ocorrer mas sem uma manifestação geral, natural ou legalmente pela previsão dos trâmites das comissões no congresso, somente.
Para se ilustrar, somente a Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) já formou mais de 600 Bacharéis em Turismo nos últimos 23 anos. Onde eles estão atuando, em que condições salariais etc, é um mapeamento não conclusivo, sem considerar as demais IES particulares que ofertam a formação. Verifica-se, sem nenhum estudo mais amplo, que estão atuando em agências de turismo, companhias aéreas, hotéis ou dando aula aqui e em outros lugares, e isso não representa mais que 10% dos graduados.
Mas a questão começa equivocada quando se opta pelo curso com a interpretação que é um curso fácil, entre outros “mitos” – como de viajar muito, não exigir cálculos, o que já uma confusão, um baralhamento da realidade em que se irá atuar. Tem Bacharel em Turismo que se forma e não sabe o que fazer, mesmo que o seu “juramento” da profissão já dite sua responsabilidade e compromisso. Outros se envolvem com a questão ambiental, onde encontram uma associação de ambientes daquilo que é ofertado e onde o turista visita, a exemplo das unidades de conservação.

Foz é um pólo irradiador desses profissionais que estão atuando em quase todo o Brasil?
Pela tradição, por Foz ter começado junto com outros pólos receptivos na década de 80 e na atualidade continua sendo pela tradição, experiência e aprendizado, de quase quatro décadas como destino turístico e sua localização. É um pólo sim de abastecimento para outros locais, mas isso não é uma regra.
Temos em um raio de 250 quilômetros, nada menos que nove instituições que formam Bacharéis em Turismo, isso é uma importante referência para toda região, devíamos nos valer muito desse aspecto como vantagem de formação de mão-de-obra especializada e promover maior integração dos cursos de graduação e pós na área.

E isso não vai extrapolar o mercado de Bacharéis em Turismo, mesmo que a profissão não seja reconhecida?
Já se observa um esgotamento em algumas dessas instituições e não é um privilégio de Foz. Isso veio a efeito do fomento a abertura de cursos que ocorreu na segunda metade da década de 90 com a promessa de “cursos promissores”. Não que não seja, mas com certa tolerância diante da necessidade de uma organização que ainda está por ser feita.
É comum não fechar turma depois do vestibular, ou ter que reunir sala com primeiro, segundo e terceiro ano, para formar uma turma para ministrar aulas. Isso é grave. Já se vê avanços de cursos de Lazer e de Gastronomia em substituição aos Cursos de Turismo.
Pode-se afirmar que a abertura dos Cursos de Turismo foi uma onda nacional, pois o discurso nacional da época, é que o turismo era inerentemente bom, todo mundo ia ganhar dinheiro, que era o setor do futuro, que iria gerar emprego. Portanto estamos administrando o erro dessa orientação feita há duas décadas atrás. Veja o resultado do ENADE em nível nacional – essa é uma referência em questão.

A visão de que o turismo seria a redenção foi equivocada?
Foi extremamente equivocada, para se ter uma idéia os números de cursos de pós-graduação em Turismo em comparação aos números de graduação são ínfimos. Você pode falar em 15 cursos de Pós-Graduação, quatro em Mestrado e dois em Doutorado que são referências no Brasil. Isso é um reflexo, senão uma leitura própria da demanda que existe hoje, ou seja, sem expressão. Ao passo que outros cursos de áreas macro a exemplo de “Gestão de Políticas Públicas” se mostram mais bem-sucedidos.
Mas, aproveitando que a construção da carreira está sendo feita pari passu à organização do setor, defendo em todos os ambientes tanto a formação quanto a atuação do Bacharel em Turismo, essa é a nossa forma de contribuição para um futuro mais garantido aos que estão ingressando nos cursos e que optaram conscientemente pela área. Saudações turísticas!

(Portal H2FOZ)

Um comentário:

  1. Não vejo necessidade de regulamentação.

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