sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O turismo é um mico? - Matéria editada pela revista Você S.A.


Quantas vezes você já ouviu dizer que a vocação do Brasil é o turismo? A paulistana Bianca Andrade, de 27 anos, escutou a frase muitas vezes. Leu nos jornais a promessa de vários governos de que o mercado hoteleiro, o de passagens aéreas e o de entretenimento iriam deslanchar e gerar milhões de empregos. "Acreditei naquilo e por isso resolvi investir na carreira", diz ela, que há pouco mais de três anos prestou vestibular para turismo e entrou em uma faculdade da região metropolitana de São Paulo. "Eu tinha uma certa ilusão de que haveria uma explosão de empregos nessa área, de que me formaria e seria gerente de uma grande agência de viagens", diz Bianca. Hoje, prestes a se formar, ela faz estágio em uma loja de passagens aéreas e recebe 250 reais por mês. "Percebi logo que o mercado é bem diferente do que imaginei", lamenta.
Assim como Bianca, todo ano, 22 800 novos profissionais se formam em cursos superiores da área de turismo pelas 570 instituições que oferecem graduação nesse campo no país. O problema é que não há lugar para todos no mercado de trabalho, de acordo com o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade (Contratuh), Moacyr Roberto Tesch Auersvald. E há dois motivos para isso: um é a expansão do turismo que nunca acontece no país. "Turismo é propaganda e o Brasil não se vende lá fora", afirma ele. Só para ter idéia, o Brasil investiu 30 milhões de reais na promoção de todo o país no exterior em 2003. A Filadélfia, Estado americano que quer ser a meca mundial do turismo GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), gasta a mesma quantia em propaganda. A outra razão é que a grande carência de mão-de-obra no setor não é de profissionais de nível superior, para cargos de chefia. E sim de pessoal operacional. Um hotel médio, por exemplo, tem de cinco a seis gerentes e cerca de 200 funcionários trabalhando nas funções de camareira, faxineira, recepcionista, garçom e cozinheiro. "O que o setor precisa é de gente para carregar o piano, e não de pessoas para tocá-lo", diz Auersvald. Para o professor Mário Carlos Beni, da Faculdade de Turismo da Universidade de São Paulo (USP), o que o mercado procura é inversamente proporcional à resposta das escolas de turismo. Ele diz que deveria haver mais cursos técnicos, para qualificar a mão-de-obra operacional, do que escolas de formação de nível superior. "Quem se forma em um dos cursos de terceiro grau não quer se sujeitar a trabalhar como recepcionista ou mensageiro", afirma. Foi o que aconteceu com Nelson da Cunha Pinto Filho, de 32 anos, formado em turismo pela USP em 2001. Ele nunca encontrou chances de entrar no mercado de trabalho, a não ser vagas para assistente, operador de reservas e recepcionista. "Começar do zero, num cargo operacional, é uma roubada, um mico", diz ele, que abandonou a área."Preferi dar continuidade à minha formação anterior, de técnico em mecânica, que tem mais mercado e paga mais." Sua colega de faculdade, Paloma Cavalcanti, de 24 anos, entretanto, resolveu insistir na carreira. Abriu sua própria empresa de planejamento e consultoria para hotéis. Mas, para se sustentar, dá aula em uma faculdade de turismo. Seu salário como professora varia entre 1500 e 2000 reais, conforme o número de horas trabalhadas. "As aulas são o que me segura, já que com a empresa não é todo mês que tenho lucro", diz, acrescentando que a maioria do pessoal da classe também partiu para o ramo do ensino. A saída encontrada por Paloma e seus colegas, segundo o professor Beni, já está deixando de ser uma alternativa para profissionais que não encontraram oportunidades no setor. "Nos últimos anos, não há o mesmo interesse pelo curso. Houve uma queda nas matrículas de 50%. As faculdades estão demitindo professores e fechando cursos." Aprendizado na prática existe, entretanto, uma maneira de seguir carreira na área de turismo, segundo Dináurea Cheffins, vice-presidente de recursos humanos da Atlantica Hotels International, administradora que opera hotéis como Radisson, Clarion, Confort e Sleep Inn. "O único modo de se dar bem na área é começar por baixo e aprender a profissão na prática", afirma. A questão é que a grande maioria das pessoas só quer trabalhar como gerente ou em cargos de chefia. "Humildade para aceitar tarefas que parecem inferiores faz parte do dia-a-dia de quem trabalha nesse campo", declara. Fabiana Zichia, de 24 anos, deixou o orgulho de lado topou desafio. Há três anos, quando havia iniciado o curso de turismo em uma faculdade paulistana, saiu para procurar estágio em hotéis. Encontrou uma vaga no setor de reservas do Radisson, em São Paulo. Topou, apesar do baixo salário: 400 reais. A mensalidade da faculdade era de 700 reais. "Eu queria entrar para o mercado", recorda. Oito meses depois, Fabiana foi efetivada no departamento de operações do hotel e hoje é assistente de qualidade, com salário de 1 300 reais. Mas o que ajudou Fabiana, além de sua disposição para aceitar serviços não tão glamourosos, foi o fato de ela ter inglês fluente. "Ter curso superior em turismo ou administração hoteleira não é imprescindível", diz Dináurea, da Atlantica Hotels. Ela mesma é formada em psicologia e começou sua carreira há 22 anos, como estagiária do setor de treinamento de um hotel. "O que conta mais é ter formação em línguas", diz. Saber idiomas, segundo ela, é importante em todas as áreas do turismo. Para se dar bem Silvio Araújo, de 35 anos, formado pela Universidade de Administração em Hotelaria de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, em 1990, tem o perfil do profissional de sucesso que Dináurea traçou. Fala espanhol e inglês e teve humildade para agarrar a chance que parecia mais sem graça. Logo após receber o diploma e concluir o estágio obrigatório, aceitou um emprego como assistente da área comercial do hotel Caesar Park São Paulo. "Fazia de tudo: desde tirar xerox a serviço de mensageiro", recorda. Em 1996, Araújo deixou o emprego para ficar seis meses no exterior e estudar inglês. "Inglês é a língua do dia-a-dia no setor", diz. Ao voltar, foi contratado para trabalhar no departamento de vendas do Renaissance São Paulo Hotel, um dos mais luxuosos da cidade. Hoje, Araújo é diretor de marketing do Grand Hyatt São Paulo, com um salário que fica entre 20.000 e 30.000 reais. "Hotelaria e turismo se aprende na prática. Quem quer se dedicar tem de começar por baixo, não interessa a formação." Casos como o de Araújo são raros, pois a média salarial do setor é baixa. As entidades de classe calculam que os salários variam entre 400 reais e 10.000 reais. A média, entretanto, é de 682 reais, já que há muito mais gente na camada operacional do que na corporativa. É por isso que Patrícia Rodrigues, de 27 anos, diz não ter perspectivas na carreira. Ela pagava 448 reais de mensalidade para a faculdade em que se formou, em 2003. Hoje, ganha 800 reais no departamento financeiro de uma agência de viagens. "Não vejo futuro para mim", afirma. Será que agora vai? - Em abril do ano passado, o Ministério do Turismo lançou o Plano Nacional do Turismo, com a promessa de, em três anos, chegar à marca de 9 milhões de turistas estrangeiros visitando o Brasil anualmente (ante 4,1 milhões em 2003), o que geraria 1,2 milhão de empregos. Não foi a primeira vez que o governo fez projeções otimistas para o setor. Em 1992, por exemplo, o ex-presidente Fernando Collor de Mello lançou a Política Nacional de Turismo. Naquela época, os estrangeiros que visitavam o país deixavam aqui, em média, 1 bilhão de reais por ano. Quatro anos depois, o número caiu para 800 milhões de reais. Desta vez, parece que algo de efetivo está acontecendo. De 2002 para 2003, o número de turistas estrangeiros no país cresceu 8,12%, e o ingresso de dólares, 8,52%. No ano passado, o país recebeu a visita de 4,4 milhões de turistas de fora, segundo a Associação Brasileira de Turismo Receptivo. A quantidade é 12% maior do que no ano anterior. Nos últimos 12 meses, os turistas estrangeiros gastaram 2,5 bilhões de dólares no país, quase 7 bilhões de reais -- 32% a mais do que em 2003. Alta Temporada - Com o aquecimento da economia, mais gente deve aproveitar o período de férias e viajar. Algumas agências de turismo já registravam no final de 2004 um aumento de 30% nas vendas de pacotes para a alta temporada em relação ao mesmo período de 2003. Companhias aéreas também conferiam um aumento na demanda. De janeiro a novembro do ano passado, por exemplo, a Gol já havia apurado um crescimento de 34% no volume de passageiros transportados em relação ao ano anterior. A seguir, outros números do turismo no Brasil: 10 milhões de pessoas trabalham no setor São 570 faculdades de turismo e áreas relacionadas 22 800 novos profissionais de nível superior são formados por ano 682 reais é a média salarial Cada hotel emprega, em média, cinco gerentes e 200 camareiras, faxineiras, recepcionistas e garçons.

9 comentários:

  1. o que falta são pessoas qualificadas, sou formada em turismo, sou atuante na área, precisando de pessoas capacitadas para exercer funções importantes como por exemplo coordenar eventos, com direito a um salário digno a uma pessoa que se esforçou e que sabe o que faz e GOSTA (essencial na área) e não encontro, encontro SIM pessoas formadas, muitas, mas sem nenhum conhecimento de verdade, uma faculdade, estar formado, não é suficiente em nenhuma área. é uma pena eu está precisando de alguem de Fortaleza, aqui o turismo é bem movimentado e tem crescido a cada dia.

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  2. Olá Camila, concordo com vc!

    Muitos se formam e não tem a experiencia que o mercado necessita no momento.
    Trabalho com turismo há 10 anos, sou apaixonada pelo que faço, meu unico problema até hoje foi falta de oportunidade, sempre trabalhei muito, e ganhei pouco, por condições financeiras comecei mais tive que parar minha faculdade.
    Moro em Bonito-MS a cidade do Ecoturismo, é uma cidade que esta se desenvolvendo a cada ano, este ano de 2010,abriu a Universidade Federal da qual hoje estou me especializando para aprimorar meus conhecimentos e conquistar novas oportunidades.

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  3. Olá, Se eu tiver fluência em Inglês e espanhol apenas...eu posso me dar bem no mercado de trabalho?
    Desde já Obrigada

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  4. Ter fluência em outras línguas só te proporcinará serviço de recepcionista de hotel, recebendo pouco, trabalhando em escala de 6X1, além da clientela da hotelaria ser a pior que existe, pois eles não te respeitam quanto ao seu profissionalismo.

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  5. Me chamo Alessandro sou formado em turismo desde 2.004, ja trabalhei na area e tb sou funcionário publico e ate hoje não consegui sair desse serviço que odeio, cheguei ficar afastado para trabalhar numa agencia de intercambio, hotel cinco estrelas , mais tive qu evoltar a ser funcionario publico nosso salario sempre foi uma vergonha, enquanto nao nos unirmos pra regulamentar a profissão vai ser sempre essa droga, fazermos manifestaçoes pacificas vai ser assim, até o ministro do Turismo, Pedro Novais, nasceu em Coelho Neto,no Maranhão, há 80 anos É advogado, formado pela Universidade Federal do Espírito Santo, com estágios nas áreas
    de Direito Tributário, em Londres, e de Planejamento e Administração Tributária, em Washington, nos Estados Unidos.
    Auditor fiscal aposentado do Tesouro Nacional, o ministro foi secretário de Fazenda do Maranhão em duas ocasiões, hum homem que ja viveu o suficiente e ganhou o suficiente o que ta fazendo lá , vmaso dar oportunidades para pessoas mais jovens e formados na area, tem muitos caras bons ...

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  6. Já trabalho nesse area, falo ingles e estou cursando turismo em Fortaleza. Sou recepcionista e como um colega falou antes, ganho pouco, em pequeno e a clientela é uma das piores. Gosto dessa area, que não é valorizada mesmo, Tenho colegas formados aqui que ganham o mesmo salário que eu, assim.... Brasil segue avançando... Não!

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  7. Bem sou formado em Turismo há 2 anos, estou investindo na área, falo ingles e estou estudando frances, o que dificulta é a quantidade de trabalho e a falta de reconhecimento, espero resistir na área e um dia chegar a algum lugar, pois se for pra ser assim nessas condições que tenho hoje, não sei até quando irei aguentar. sem falar no salário mísero.

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  8. Meu nome é Raquel sou Turismóloga frustrada, me formei em 2006, esse curso realmente é uma roubada, não conheço ninguém da minha classe que deu certo e que está na área. A não ser uma menina apenas, mas que entrou na CVC a 7 anos e está fazendo a mesma coisa acredita....estou decepcionada completamente....se tiver alguém querendo fazer este curso não o faça, por favor.

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  9. Tenho uma pergunta: Hoje, fevereiro de 2014, a situação salarial permanece a mesma, ou a proximidade de eventos grandes, Copa e Olimpíadas, mudou ou esta mudando este ramo de atividade. Moro na Região dos Lagos e tenho interesse em um curso de Tecnologo em Turismo pela FAETEC. Tendo viajado por diversas cidades brasileiras e algumas no exterior, vejo o turismo na minha região como algo explorado de forma amadora.

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